A vida num tapete de yoga

(Nederlands) (English)

Quinta dos Chões, Marvão, Portugal
Photo by Alex Buiter (thank you dear son)

Quando comparo escrever a um desporto, a primeira coisa que me vem à cabeça é o yoga. A ligação que faço no yoga comigo mesmo, o professor e o grande quadro é o mesmo que o de escrever. 

Em 2010, na minha quinta em Marvão Portugal, aconteceu algo que me mostrou a ligação entre tudo o que eu sou e faço. Tinha continuado lá a minha prática de yoga holandesa, só que agora em português e inglês.

Um dia, recebi uma chamada de um inglês. Ele queria uma lição privada. Enquanto caminhava com ele até ao convés do yoga debaixo das oliveiras, falámos sobre as belas paisagens e o tempo. Ainda era cedo pela manhã. Cerca de duas horas antes do fresquinho matinal seria expulso pelo calor. Entretanto, observei a sua forma de andar, falar e mover-se. Um automatismo de mim.

As minhas lições nunca estão preparadas. Sintonizo-me completamente com o grupo ou, neste caso, com a pessoa. Nesses momentos, o meu pensamento está parado e começo a mexer-me. Jim – era esse o seu nome – seguiu os meus movimentos. Com uma flexibilidade como só as pessoas que praticam yoga há anos podem. O seu silêncio era grande. O meu silêncio foi grande. Quase sem palavras, a aula passou. Por vezes aperfeiçoava as suas posturas pelo toque. O tempo foi-se enquanto tudo o resto estava ali: as árvores, os pássaros, a sombra, o movimento, o silêncio. Foi um só.

Mais tarde, durante o chá, ainda não tínhamos falado. Olhámos um para o outro. Depois disse-me que nunca tinha tido uma aula de yoga antes. Esta foi a primeira vez na sua vida. Todo o yoga tinha aprendido de um livro que uma vez recebeu durante um período de extremo stress e doença. Ele tinha começado a treinar, a treinar e a treinar. E agora após 20 anos e brilhando de saúde, ele queria saber se o estava a fazer correctamente. No dia seguinte, ele trouxe-me o livro. Como agradecimento. 

Para mim, esta sessão de yoga foi uma experiência inesquecível de estar em sintonia comigo mesmo e com tudo à minha volta e uma nova confirmação de que nós humanos precisamos uns dos outros para nos ligarmos a nós próprios.

Esse processo também acontece quando escrevo. É um movimento de dentro para fora onde o silêncio é importante. Nesse silêncio, posso dar espaço à escrita. E essa escrita só pode ganhar vida se eu me ligar a si, o leitor. Como sentar-se à minha frente num convés de yoga. Não faço a menor ideia de quem é. Tudo o que sei é que é humano. Você, por sua vez, liga-se a mim lendo, absorvendo, sentindo as minhas palavras. Pelo menos, é assim que leio as palavras dos outros: sempre à procura da ligação para vir até mim.

A propósito, o título do livro que Jim me deu é: Heaven lies within us (O céu está dentro de nós) por Theos. Bernard. Publicado pela primeira vez: 1939 nos EUA.

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