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Quando falo de Verão, quero dizer que os dias mais quentes do ano aterraram nas nossas terras entre as montanhas portuguesas da Serra de São Mamede. Senti isso já esta manhã durante a minha sessão diária de yoga e meditação. O sol não nasce muito cedo aqui, por volta das 6:30 horas, mas por volta das 9 horas sinto o calor a nascer. 

Estas manhãs são encantadoras com as aves ainda a chilrear, com o abelharuco jubiloso ser senhor e mandador, com u vizinho enxar na terra poeirenta e o meu marido a arrastar brita. Cada som é um contraste com o silêncio que precede o calor. À tarde, esse silêncio crescerá em imobilidade. A natureza retira-se então completamente da vida, põe-se a dormir, faz uma sesta. 

Também eu. Após o almoço, faço uma sesta de meia hora e depois encontro-me na minha secretária. Portadas e janelas fechadas para manter a casa fresca. Até a porta da cozinha permanece fechada o mais possível. Koos o cão não anda para trás e para a frente de e para a casa nestes dias. Ele dorme profundamente e só entra em movimento quando o sol se põe. Onde está o Rus, o gato? Não faço ideia. Está algures na sombra, a pensar no que vai fazer mais tarde.  

Pouco antes do sol desaparecer atrás de Marvão por volta das sete horas, o dia atinge a sua temperatura mais alta e depois desce rápido. As noites são sempre frescas. Pensamos que vivemos num clima maravilhoso, especialmente porque a humidade é por vezes tão baixa que o higrómetro não a consegue medir. 

Quando tenho de estar ao ar livre à tarde, sinto-me como no deserto. Tudo parece abrandar e distanciar-se de onde eu estou. Os pensamentos derretem como os relógios na pintura de Salvador Dalí A Persistência da Memória, que retrata a relatividade do tempo. E é exactamente isso que eu sinto. 

O tempo não é feito de pedra, o tempo é líquido como a água que continua a fluir por toda a eternidade. 

Embora nós, humanos, viramos nos nossos verões para fora e dançamos uns com os outros, o auge desse Verão pode simultaneamente tocar o seu ser mais profundo. O calor apenas traz a sensação de tempo eterno que normalmente só aparece quando os seus pensamentos se tornaram inaudíveis.